domingo, 19 de abril de 2015

Em Pe(d)aço(s) - O Espelho

(Lilibeth Cuenca Rasmusse - Exposição: Espelhos Móveis - 2009 - Michael Schultz Gallery Bijing)

Contenho-me...
Mas não tenho ânimo
Caminho a passos curtos
Obstinada talvez...
Com olhar perdido
Mais partida que um reflexo em vido quebrado
Como este a minha frente...
Os meus gestos são meras previsões
Embaciada e sem viço
Uma imagem vacilante
Já não sinto o deslizar
O roçar do tempo em mim
Mas os assovios ainda me emocionam
Ainda me fazem doirar por dentro
E ressentir uma alegria que já é morta
A imagem refletida
Nestes pedaços ao largo
Acompanhada de uma nesga de céu azul
Que me mobiliza a olhar
E a perceber todo o passado dentro
É um reflexo
Um engodo
Como nós...
Vimo-nos com olhos vazados
Deixamo-nos sempre pelo se...
Reconstituo na mente
Emoções inventadas
Considerando-as inventadas
As quais ainda recorro para me (re)conhecer
Vez por outra esbarro numa imagem real monstruosa
Só às vezes ela aparece...
Confundo-me entre percepção e a ilusão
Olho-me e o que vejo
Não sei se sou eu
Não me recordo de mim
Então me invento
E reinvento...
Para essas imagens
Minha
E suas, às vezes
Que se me impõem
Dia-a-dia...
Restam-me palavras
Para descrever meu horror
Diante dos nossos eu’s refletidos
Tão outros...
Tão insensíveis...
Sou refém dessas imagens que me cercam
Que não se revelam
Que não sou eu...
Que não é você...
Não nos leio mais nesses reflexos
Mas, ainda me perturbam
Revejo meu cenário nessas faces horrendas
Voltadas contra nós...
Contra mim...
Congeladas e transformadas
Pelo tempo que não nos toca a tempos
Nesse espelho em pedaços
Tudo nelas é tão pueril
Nelas não sinto as minhas ou as suas dimensões
Este espelho em pedaços me revela
Umas figuras superficiais...
Nada encantadoras...
E parciais demais para a minha suposta ousadia...
Nelas o meu eu eliminado
Transformado
Em cacos
Mas ainda me pergunto...
Vencido?


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