domingo, 9 de agosto de 2015

Lacuna Incurável

Seria hoje seu dia...
Se você existisse além das nossas lembranças
Se você fosse bom
Forte... Invencível
Enfim perfeito
Tanto quanto nossa inocência infantil confiava ser
Não pôde nos ensinar mais que algumas letras
Por isso nossa versão do mundo e das pessoas
Nossas histórias
Sofrem de lacuna incurável
Pouco permaneceu conosco
Não foi o porta-voz de D’us junto a nós
Faltou tempo para que fosse nosso exemplo de homem
Talvez eu deva à tua falta o meu dedo podre
Não permitiram que fosse o conselheiro...
Ao qual recorreríamos nos momentos de dúvida
O protetor nas horas de desespero
Não estava presente para nos orientar
Nas decisões importantes
Nas escolhas difíceis
Tampouco para nos encorajar nos momentos de medo
Porém tua ausência incentivou a covardia de muitos
Contra nós... Que te perdemos...
Não se fingiu de morto
Tua vida foi arrancada
Por dinheiro... Sem punição
Mas nunca nos ausentamos de ti
Apesar de não ter ressuscitado ao terceiro dia
Sempre lhe teremos amor
Mesmo você não sendo um filho santo
Nem tendo podido escapar da morte e seu encanto
Pai

domingo, 26 de abril de 2015

domingo, 19 de abril de 2015

Em Pe(d)aço(s) - O Espelho

(Lilibeth Cuenca Rasmusse - Exposição: Espelhos Móveis - 2009 - Michael Schultz Gallery Bijing)

Contenho-me...
Mas não tenho ânimo
Caminho a passos curtos
Obstinada talvez...
Com olhar perdido
Mais partida que um reflexo em vido quebrado
Como este a minha frente...
Os meus gestos são meras previsões
Embaciada e sem viço
Uma imagem vacilante
Já não sinto o deslizar
O roçar do tempo em mim
Mas os assovios ainda me emocionam
Ainda me fazem doirar por dentro
E ressentir uma alegria que já é morta
A imagem refletida
Nestes pedaços ao largo
Acompanhada de uma nesga de céu azul
Que me mobiliza a olhar
E a perceber todo o passado dentro
É um reflexo
Um engodo
Como nós...
Vimo-nos com olhos vazados
Deixamo-nos sempre pelo se...
Reconstituo na mente
Emoções inventadas
Considerando-as inventadas
As quais ainda recorro para me (re)conhecer
Vez por outra esbarro numa imagem real monstruosa
Só às vezes ela aparece...
Confundo-me entre percepção e a ilusão
Olho-me e o que vejo
Não sei se sou eu
Não me recordo de mim
Então me invento
E reinvento...
Para essas imagens
Minha
E suas, às vezes
Que se me impõem
Dia-a-dia...
Restam-me palavras
Para descrever meu horror
Diante dos nossos eu’s refletidos
Tão outros...
Tão insensíveis...
Sou refém dessas imagens que me cercam
Que não se revelam
Que não sou eu...
Que não é você...
Não nos leio mais nesses reflexos
Mas, ainda me perturbam
Revejo meu cenário nessas faces horrendas
Voltadas contra nós...
Contra mim...
Congeladas e transformadas
Pelo tempo que não nos toca a tempos
Nesse espelho em pedaços
Tudo nelas é tão pueril
Nelas não sinto as minhas ou as suas dimensões
Este espelho em pedaços me revela
Umas figuras superficiais...
Nada encantadoras...
E parciais demais para a minha suposta ousadia...
Nelas o meu eu eliminado
Transformado
Em cacos
Mas ainda me pergunto...
Vencido?


terça-feira, 14 de abril de 2015

Pontos Reticentes

(Imagem vista em: venusemaries.blogspot.com) 

Não quero companheiros de viagem.
Sejam eles reais, virtuais ou imaginários...
Quando posso escolher viajo sozinha.
Sigo os meus caminhos observando os que vão sós também.
Ainda que, às vezes, não saibam disso, ou não possam admiti-lo!
Não quero o convívio com seres superficiais e dissimulados.
De seres que seguem sem questionar os padrões.
Dessa gente facilmente satisfeita!
Contida em quatro cantos
Obvio, existem àqueles com os quais eu me engano!
Não me interessam covardes, hipócritas, crédulos...
A menos que sejam ímpares,
Que não sejam meras repetições de modelos gastos
As cópias não despertam nada em mim
Nem revolta, nem curiosidade, nem mesmo, desprezo...
Nada nelas merece o tempo do meu ócio.
Eu quero a companhia dos que se comprometem...
Dos que se envolvem intimamente...
Dos apavorados que enfrentam os seus medos...
De homens e mulheres honestos consigo mesmo
E com os outros...
Dos que não se vedem.
E daqueles que não querem comprar ninguém.
Principalmente, com moedas de prata.
Eu quero perto os que são capazes da lealdade canina.
Os que defendem o coletivo com a mesma ferocidade dos lobos.
Eu quero franqueza, dar e receber...
Eu quero fraqueza, que ser forte o tempo todo exaure...
Eu quero ousadia e não libertinagem.
Eu quero os que buscam a verdade.
Mas, os conscientes...
De que não somos capazes de totalidade alguma.
Quero os que querem o bem.
Porém, somente aqueles que para tanto não fazem o mal aos outros.
Eu quero os convictos, mas não os irredutíveis.
Quero os esperançosos, não os conformados.
Quero os vivos, não os que existem.
Quero os que amam, para ter a quem amar...
Não me ofereçam doutrinas, dogmas ou ilusões.
Não quero os que me impõem seus pontos de vista
Que, em mim, pontos são reticências...
Quero as experiências alheias,
Como referência, não como destino.


terça-feira, 7 de abril de 2015

S(em)ua Imagem

 
(Iemanjá - visto em: candomblebahia.wordpress.com)

Enigmática
Fascinante
Nada compreensível em matéria de humanidade
A pôr-me perplexa
Com seus traços distintos
Sensivelmente modificados pelo tempo
Restaura-se permanentemente
Não é luz
Mas exposta a ela alumio-me
Compõe o universo dos romanescos
Algumas de suas cenas
Remontam a uma construção teatral
Obra que chama a atenção
Fenômeno que regala a vista
Mas não sempre
Inteligível
Artificial e profunda
Seu prestígio incontestável
Divide-se em quatro fases
Quatro estações
Rompe com o tempo e o retoma quando quer
Não cessa de voltar
Eterna transição
Completa e dotada de sentidos
Superior
Para aqueles que estão em condição transgredinte
Aqui singular
Refugiam-se nela os sofridos
É enunciada em meus escritos lacrimosos
Mesmo D’us deve deter nela seu olhar...
Esfera Áurea (quase) terrestre
É um canto d’alma
Visto de fora
Guardado dentro
Vista
A cada olhadela
Indigna de nota
Mas tão...
Tão intimamente particular...
Fundamental...
Que não cabe em um canto qualquer
Nem mesmo neste...


quarta-feira, 1 de abril de 2015

(Re)torno

(Paul Klee - O início de um sorriso)


É seu
o absolutamente nada
em definitivo
te pertence só a mísera voz:

Das conversas 
durante jantares
onde se esboçam
futilidades
defesas e acusações
onde se coloca nos pratos
além da comida
todas as merdas produzidas no dia

A qual só expressa 
uma versão
racismos
preconceitos
temores
crenças (comem) verdades

A qual expõe injustificáveis justificativas
nada plausível
acusadora de traições
(a)cometidas de 
e somente pelos próprios "eus"
narcísica
tomada de si para si
propícia a juízos inadequados
A qual se cala
finge silêncio
Se a quer é sua
Não sendo quem sofre
se há vítima
dela é carrasca

Em busca de absolvição?
obviamente não...


segunda-feira, 30 de março de 2015

(RE)n(EGO)

(Patrícia Aragón - Releitura fotográfica do Narciso de Caravaggio - visto em: https://www.flickr.com/photos/sadyfotografia/5632931341/)

A esperança na encruzilhada
Apega-se a fervura negada
Foge da vontade
Pede independência
Lamenta a não ação

A derrota é a lei do chão
Onde caí
Implorando que a leitura feita
Não terminasse assim

quinta-feira, 26 de março de 2015

Modelos?

Estamos em crise de excesso
Não nos faltam paradigmas:
Da verdade
Da razão
Do belo
Do eterno
Da religião
Do ser ou não ser
Do eis a questão

domingo, 22 de março de 2015

Os Voláteis

Não esquece
Nem se lembra
Mesmo sabendo 
Ignora
Não importa
O tempo 
Todos os dias
O azul
O vermelho
Terrivelmente púrpura 
Imersos na indiferença
Ou covardia
Desbota
Desencanta
Muda de cor
(Des)cora

sábado, 21 de março de 2015

Desperta


(Photo Manipulation Creativity, em: smokingdesigners.com)
Despertei
Enfim
E percebi
Todos se foram
Fiquei com sonhos inúteis
Com os meus amores vãos
Tu(do) é calma agora
Saciada de des(prazeres)
Espalhada
Em pedaços
Coláveis
Mas não isentos
Do que se foi
Ou não foi
Lavrada
Camada por camada
Desci
Degrau-a-degrau
Estou a descoberto
Na rua
Sinto-me pequena
Resumida
Porém localizada
Sei de mim
Dos meus centros
Das minhas periferias
Dos meus espaços organizados e tranquilos
Dos meus tempos tempestuosos
Sou, na maior parte, o que sempre fui
Contudo descobri lugares novos aqui
Pude me observar
De um ângulo novo
Conclui pequenas tarefas
Percebi-me inacabada mesmo assim
Visitei meu desconhecido
Tive esperança de poder me reinventar dali
De encontrar meu mapa
De me dar um rumo
De elaborar a mensagem exata
E facultar a mim
O resultado de todo este processo
De justificar meus vazios
Minhas ausências
Meus casos eternos
Minhas muitas idas e voltas
De compreender o porquê das falhas
De curar as frustrações
Visitei-me
Li meus pensamentos
E tentei ler os teus
Mas, os codificou com mistérios
E recusas
E medos
E dúvidas
Rasgou meu céu
E descobri que não há inferno longe
Que há inferno último
Que surtamos com olhares profundos
Gozamos com vistas de soslaio
E morremos sem sermos vistos...

segunda-feira, 16 de março de 2015

A(h...) Chuva

Não está muito frio
Mas, chove muito lá fora
E aqui dentro
Despeço-me dizendo
Que visitarei os lugares
Fotografarei
E levarei uma parte de tudo para lhe dar
Desejei-lhe bons dias
Despedi-me com beijos
Pretendendo o silêncio pra semana
Salientei que meus beijos eram maiúsculos
E que meus dois pés na senzala
Justificavam meu pavor de diminutivos
"Ainda que os tenha jurado como expressão de carinho"
Disso não me sinto convencida... Ainda...
Falou das chuvas que caíram
Enquanto me ausentei
Do calor sem trégua
Da falta que fazia minha "bela e macia juba"
Sabendo que falta mesmo
Sentia eu das tuas "mãos desertas de toques"
Nos meus anelos...

sexta-feira, 13 de março de 2015

Cercas (In)Visíveis

(Ovo Fabergé - Antiquário Wartski - Inglaterra)

Sempre escravos
Da miséria à ganância
Da senzala ao manicômio
Do castigo ao crime
Do disciplinamento à domesticação

quarta-feira, 11 de março de 2015

(Quase) Ser(tão)

(O Sertão Vai Virar Mar - visto em: antonioconselheiro.tumblr.com)

Seus passos demoram
Devora-me o precipício
E o fogo da boca do dragão
Que(i)maria 
Consumindo 
Mata(ria) a seca
Desse (quase) ser(tão)
Que sou


sábado, 7 de março de 2015

Mensagens...

(Álvaro de Campos)
Envio-lhe mensagens
Que tem muito mais a dizer
Do que aquilo que lhe é dito
Chamo-a menina...
Isso se justifica
Ela nega e duvida do óbvio
Quando a questiono
Ela acusa sua própria natureza
E, simplesmente, muda de assunto
Como se não tivesse me colocado em questão
Pergunta sobre o frio europeu
Conta sobre suas decepções
Que se tornam minhas também
Respondo que o frio lá...
Em outubro
É, ainda, brasileiro
Brinco
Que seu jeito alemão
É muito inglês
Mas critico a polidez
E discrição exagerada de ambos

sexta-feira, 6 de março de 2015

(Des)Humano

( Gunther von Hagens - Plastinação Humana - Visto em 06/03/15: http://galerialagiocondabrasil.blogspot.com.br/2012_04_13_archive.html)

Eu desejo que aprenda a ser
Com os melhores exemplos
Independentemente do gênero
Desejo que não imite os patos...
Que sua virilidade seja revigorada cada dia
Mas que ela não seja sua única virtude e interesse
E que não sustente seus preconceitos
Espero ainda que não a use para ferir
Agindo de modo, desrespeitoso, promiscuo e volúvel
Faço votos que ganhe muito dinheiro
E tenha o luxo que te alegra
Mas...
Também  que não tenha um tostão sequer para esnobar os outros
Que suas dúvidas sejam todas sanadas
E que sempre sujam outras, milhões de outras...
Pois está escrito que o pecado consiste nelas
Que o seu coração
Seu caráter
Sejam tão bons quanto...
Ou, é recomendável, melhor que...
O sexo que você faz
E que o orgulho e o egoísmo não impeçam a tua...
Nem atrapalhem a minha... Felicidade!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

(De)Canto

Não faça desses olhos intensos 

Um orvalho morno de tédio

Não os torne suspeitos

(In)Contidos
Sofridos 
Envelhecidos
(Des)encontrados
(Des)encantados
Por um instante 
Perdidos de vez
Não os feche
Como as portas cerradas do paraíso
Não os fira
Com as urtigas plantadas nos portões... 
Desse seu céu
Os meus olhos 
(Des)Prevenidos 
Para o caos do seu mundo
Não estão prontos... 
Para ver brotar seus tantos seres
(Des)Acordados... 
Na calçada áspera e fria da sua realidade
Dos seus (Des)amores
(In)compreensíveis
Com hábitos pouco aceitáveis
Nada sensatos...
Pressentindo
E ressentidos
(D)Essa tempestade
Que os cegaram e os deixaram
Afetados
Pelos cantos
Com seus (des)encantos
Que não couberam em ti...
Que se derramaram 
Sobre e sob mim
Sem sextos sentidos
Sem se fazer
(Se fizeram) 
(Sen)Tidos
Dizem que te guardou...
Os teus
Dizem o que não preciso ouvir
O que só é preciso saber
E sentir
Do que se passa em ti
Do seu gostar do fim
E da minha véspera 
Permanecer 
Num (de)canto seu qualquer