segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Entre Sonhos e Pesadelos - A Mudança das Cores

  Resultado de imagem para pablo picasso paisagem
(Pablo Picasso - Paisaje de Horta del Ebro - 1909)

A vida era uma fazenda
Com tudo o que uma fazenda tem
Muitos verdes
Muitos marrons 
Infinitas transparências
Estradas 
Que aos olhos parecem não ter fim
Cercas também
Há cercas
Mas as cercas são limites transponíveis
São fios que dizem
Aqui é o fim
E pode ser o começo se me atravessar
Há família junto
Nada nunca termina numa fazenda
Assim fazenda
vivi por muito tempo 
como se fosse eternidade...
A vida se tornou cidadela
Nas cidadelas tudo é encontro
Nada é solidão
Há amigos
Há casas onde nos sentimos abrigados
Há tantas ruas
Ruas para nos perdermos 
E para nos acharmos
Ruas onde encontramos os outros
Mas os outros são como nós mesmos
Lugar de companhia
Nunca estamos sozinhos numa cidadela
Há mais risos que dores
Há outras cores
Não tantas quanto se imagina enquanto estamos na fazenda
Apenas mais...
Com a busca pelas cores que se imaginou
A vida se torna capital
Nela há mais riscos
E os riscos são mais atraentes
Há mais traços
Traços alheios
Só se vê restos na vida capital
Coisas deixando de ser
Perdendo cor
Há mais violência
Ela é comum a todos
A violência é maior e pior
Porque já experimentada
Tão experimentada que se torna insossa
Passa despercebida
Nesse lugar da vida há muitas pessoas
Pessoas indo e vindo o tempo todo
São presenças fantasmas
E fantasmas do que foram
Ou desejaram ser
Há companhia permanente
E solidão na capital
Tanta solidão
Todos estão sós
Cercados de fantasmas 
As vezes eles são lembranças
Lembranças da fazenda e da cidadela
A capital é lugar esvaziado
De tudo o que nela habita
Nada lhe pertence
O tempo dos seus é passado
E nela não há futuro
Não lhe sobra nada do desejo me levou a ela
Depois de conhecer a que é a vida capital
Não se quer mais voltar
Não se crê mais na volta
Ou numa saída
Noutros caminhos
Todo lugar é lugar nenhum
Nem o que se foi
Nem o que permanece
Tudo parece tão finito
E insignificante
Aqui...
Há espaço de fuga
Mas não se quer nem mesmo fugir
Os caminhos são abertos na vida capital
Mas não são atraentes
São cinzas
Aqui tudo é cimento e pó
O lugar é uma boca escancarada 
Sem dentes
Te engolindo
Engolindo o arco-iris
Voamos loucos para dentro dela
E dentro dela quase tudo é dominado pela penumbra
E essa penumbra se fecha sobre nós
Enquanto ela nos regurgita
As vezes
Muito raramente
Ela se abre
Para bocejar
Nos é dado ver então
Lá fora
O amarelo vestindo salmão 
O negro escapando ao branco
O vermelho vivo e não derramado
E o tão raro azul vestindo púrpura
O púrpura que se tornou quase impossível
Nesse lugar do tempo

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Entre Sonhos e Pesadelos - O Mar

Resultado de imagem para pablo picasso o mar
(Pablo Picasso - Bathers With a Toy Boat - 1937)

A viagem fora numa nau gigante
Que levava outras naus 
Pequenas e frágeis
Ineptas à fúria do mar
Cujas ondas rebentavam soberanamente
A minha embarcação 
Navegou o mar
Dentro daquela nau
Até alcançar uma ilha
Na ilha
A orla litorânea elevada e talhada a pique
Abrigava uma morada 
Seminunda
Foi lá que desembarquei
Num caminho de pedras
Com areia branca
E muita rebentação
Entrei casa adentro
A escadaria levava para baixo
A água
Salgada
A meio caminho
Lá estava ele
Esperando por mim
Convidando-me
A continuar
Caminhou de fasto
Magnifico
Com toda a pompa
Para dentro daquele mar
Que invadia
Um lugar não seu
Manteve o olhar fixo em mim
Estendendo-me as mão direita
Vi seu corpo ser tomado 
Encoberto pela transparência aquosa
Os degraus abismados pareciam não ter fim
Mas eram o fim 



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Entre Sonhos e Pesadelos - A Morte

Resultado de imagem para pablo picasso fase negra
(Pablo Picasso - Still - Le Pichet Noir et la Têde Mort - )

Após passar pelos caminhos
Da escuridão que fratura o obscuro
E da plena luz que cega
Cheguei 
Ao que pra muitos é o paraíso
Um lugar bonito
Colorido
E as cores
Que cores
Árvores novas
Tão antigas
Flores nada convencionais
As folhas
Camas para universos inteiros
E as cores
Aquele rosa que decora quartos infantis
Aquele verde que só vemos na primavera
O chão como um tapete 
Limpo e aveludado
Os moradores daquele lugar
Poucos
Não me esperavam
Tentaram me agradar
Por alguma razão
O que não entendi de pronto
A mulher
De meia idade
Bonita e ignorante
Quase superficial
Tentava me conduzir
Naquele espaço de beleza impar
A casa parecia vazia
Ela era o mundo
Um mundo
Não tinha móveis
Não tinha amor
Mas o jardim
No jardim
Tudo era lindo
Enorme
Vasto
Imprevisível
Reino de uma brisa suave e permanente
De um sol que aquecia sem queimar
Os galhos daquelas árvores vivas me apanharam
Eu
Uma mancha negra
Naquele arco-íris
De súbito
Livraram-me das garras da mulher vazia
Na qual habitava apenas uma semente
Prestes a morrer
Que a movia
E lhe dava
Realmente
Vida
Havia também um homem
Ele era silencioso
Quase triste
Mas estava lá
Guardava a semente
Que mantinha a mulher viva
A alimentava
A desviava de mim
Enquanto a mulher me desviava dele
Mas a semente era a minha busca
Inconscientemente
Eu a queria
O jardim apreciava a semente
Ela o mantinha 
Leve
Limpo
Lindo
Não tinha ele a intenção de entrega-la a mim
Distraia-me com suas cores e movimentos
Com seus aconchegos mirabolantes
Mas a semente não fugira
Ela não temia nada
Sabia que seu destino era certo
Eu não havia compreendido
Por que motivo estava ali
Sentia-me bem naquele lugar
Era onde eu deveria estar
Tive vontade de permancer
Pensei comigo
É estranho
É bom
Muito bom
É um sonho
E uma voz me disse
Não é um sonho
Você e esse lugar existem
Estão aqui
São
Eu perguntei àquela voz 
Que parecia vir daquele céu azul
repleto de núvens
O que eles temem?
Tudo parece perfeito
Aqui há felicidade
Então do que eles têm medo?
A voz me respondeu
De ti
Da morte
Questionei
Por que de mim?
Que tolice
Tudo aqui é vida
A voz
Você não
Eu não o quê?
Não sou viva?
A voz
Não
Você é a semente
E a semente é a morte